Rubem Fonseca - A ruptura do cânone como um reflexo do Brasil
À luz da reabertura política do Brasil (meados dos anos 70), o país ainda vivia assombrado pela censura da moral e dos bons costumes instaurada nos fulgurantes anos 60, mais especificamente no fatídico ano de 1968 - o ano do Ato Institucional n° 5. Nesse período, arte e literatura passaram por constantes rupturas e atos de vanguarda para sobreviverem aos olhares discriminatórios dos agentes do Estado. Assim, a partir da crise do romance brasileiro, autores encontraram nos contos, a brevidade de propagar ideais de contracultura e de manifesto contra o clima caótico que rondava o país.
Apesar desse solo fértil poder ter semeado literaturas de guerrilha e obras políticas, Rubem Fonseca apostou na crítica social e no desmonte da vida de fachada da elite em suas obras urbanas, como pôde ser visto em seu compilado de contos “Feliz Ano Novo” lançado em 1975. Então, nesse panorama sociocultural vamos explorar o conto autointitulado do livro que marca a linguagem informal de Fonseca e sua rápida amostragem do Rio de Janeiro dos anos 70.
Ao começar a leitura do conto “Feliz Ano Novo” é interessante analisar o conteúdo do título. Espera-se possivelmente uma história marcante e próspera aos nossos olhos, mas o que Fonseca descreve ao longo de breves, embora intensas, 8 páginas decerto não é uma prosa leve, tão menos bem afortunada. De cara, o leitor é apresentado a um cenário onde 3 jovens vivem, talvez em uma área da periferia social carioca, sustentados a base de pequenos furtos por eles praticados ao longo do dia. Em um triste panorama de disparidade social que abraçava (e ainda abraça) o Brasil, o escritor insere diálogos coloquiais e reais do que era conversado nas ruas, o linguajar do povo sem adornar as palavras com o tom açucarado das narrativas épicas ou das telenovelas da época (principalmente as antecessoras de Beto Rockfeller).
Os protagonistas, Pereba, Zequinha e o narrador da história, cujo nome não é mencionado, conversam no início do conto sobre o que está acontecendo no Rio naquele réveillon, destacando o luxo e a luxúria em que os mais abastados vivem sem se preocupar com o quanto gastam ou com quem se relacionam. Em contrapartida, os garotos discutem como irão conseguir alimento para não passarem fome, pensando por exemplo em roubar as comidas típicas dispostas em oferendas pela cidade. Nesse viés, Fonseca descreve abertamente a situação paupérrima de muitos brasileiros da época, tipo de denúncia que não deveria ser anunciada,pois demonstrava a ineficácia das políticas do governo, algo inimaginável em um contexto ditatorial, já que este preza por mascarar as questões socioeconômicas. Isso fica claro em trechos como “Eu queria ser rico, sair da merda em que estava metido! Tanta gente rica e eu fudido.”.
Além desse ponto, o autor da obra também chama a atenção do leitor à violência policial presente naquela época com repercussões até os tempos atuais. Esse aspecto pode ser visto de forma bem direta no trecho: “Pra falar a verdade a maré também não tá boa pro meu lado, disse Zequinha. A barra tá pesada. Os homens não tão brincando, viu o que fizeram com o Bom Crioulo? Dezesseis tiros no quengo. Pegaram o Vevé e estrangularam. O Minhoca, porra! O Minhoca! crescemos juntos em Caxias, o cara era tão míope que não enxergava daqui até ali, e também era meio gago — pegaram ele e jogaram dentro do Guandu, todo arrebentado.”. Logo, além de uma vida penosa em que se matava um leão por dia para sobreviver, os jovens da história ainda enfrentavam o aparelho repressor do Estado no suprassumo de sua ignorância e violência.
À medida que a leitura prossegue, os meninos decidem assaltar a casa de algum grã-fino do bairro São Conrado, região sofisticada do Rio, para conseguir o que comer e algumas joias, relógios, cheques e dinheiro para se manterem. Assim, com todo o aparato de armas que seria utilizado em um assalto à banco, os três conseguem invadir uma casa, amedrontar seus moradores, roubar itens preciosos, matar alguns convidados e traumatizar sexualmente algumas mulheres. Logo após todo o cenário de horror instaurado ali, os garotos fogem e se reúnem em casa para comemorar o Ano Novo. Daí, percebe-se o elemento surpresa do conto, há um lance cômico sobre o título, pois eles conseguiram obter o que enfim queriam, a tranquilidade de começar o ano alimentados e com algum níquel no bolso, ainda que se valendo de métodos pouco ortodoxos.
É interessante perceber depois da leitura desse conto, que Fonseca traz, além de um reflexo do Brasil, um texto que rompe com as noções tradicionais de discurso e ainda nos apresenta um personagem-narrador que praticamente narra uma crônica. Esses parâmetros literários podem confundir o leitor, principalmente com a ausência do uso de travessões para indicar o discurso direto, ou pelo constante emprego do discurso indireto livre que mescla as falas das personagens com a narração. Nesse viés, apesar de brincar com pontos essenciais da escrita, o escritor torna a história mais próxima de quem a lê, fundindo ficção com realidade. Quais seriam os limites de verossimilhança nesse caso? Poderia ser praticamente uma anedota de jornal contando os crimes cometidos por três jovens em uma noite de réveillon, mas a literatura não pode existir só para fins jornalísticos, não é imprensa. Assim, em uma mescla de experiências, “Feliz Ano Novo” mostra que arte pode ser retrato do povo, língua do povo, como denúncia, como reflexão de um tempo ou inclusive como espaço de contar a história pela visão de quem a vive, não de quem a simplesmente assiste.
Então, fica o convite para você leitor embarcar nos contos urbanos de Rubem Fonseca e me contar aqui nos comentários suas opiniões e reflexões dessa obra canônica do escritor!
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